28/06/2014

A avenida

Sentada na cozinha, bebia o meu café, enquanto folheava uma revista que a Sue me trouxera à pouco. A mesa da cozinha ficava encostada à grande janela pelo que, de vez em quando, empinava a cabeça e espreitava lá para fora. Lá fora na avenida, as pessoas corriam agitadas de um lado para o outro, como formigas tontas. Os carros apitavam bastante por causa do trânsito, era raro não haver uma ou duas discussões por dia entre os condutores. Àquela hora, a avenida era sempre um inferno. Mesmo sendo domingo.
Terminei o café. Arrumei a fruta que tinha ido comprar ao mercado, mas demorei mais do que devia porque me deixo sempre fascinar pela casca aveludada dos pêssegos e pelo aroma das maçãs vermelhas. Por fim abandonei a cozinha.
Já na sala de estar, pensei em ligar novamente à Sue. Sentia-me sozinha. Peguei no telemóvel e quase carreguei no botão de chamada, mas desisti. A Sue já tinha uma família formada, filhos, marido, não podia tomar-me sempre como prioridade. Peguei nos 2 livros que estavam em cima da mesa de centro e dirigi-me às prateleiras para os guardar.
Depois pequei no meu casaco e saí, fechando a porta lentamente. Não tinha pressa.
Lá fora na avenida a agitação permanecia. As pessoas nem prestavam atenção ao que tinham à sua frente, sempre agarradas aos relógios, ou embrenhadas numa chamada telefónica. Quando me mudei para aqui foi tão difícil adaptar-me a esta rotina. Ainda é. O bairro onde cresci era tão diferente. Eu parecia um peixe fora de água. A Sue tinha sido uma grande ajuda.
Comprei uma sandes numa daquelas carrinhas ambulantes e sentei-me num banquinho de jardim a mordiscá-lo muito devagar. Sem pressas.
Um homem veio sentar-se perto de mim. Não tardei a sentir um odor horroroso a pairar no ar. Olhei para o homem com mais atenção. Parecia muito sujo e cansado, as roupas já estavam muito gastas e os sapatos rotos. Um sem-abrigo. Os seus olhos claros voltaram-se para mim. E eu desviei o olhar rapidamente. Olhei para a sandes e voltei a olhar para o homem. Não foi preciso pensar muito.
-Tome. - estendi-lhe a sandes.
Ele abanou a cabeça, recusando.
-Eu não tenho fome, por favor aceite.
Ele olhou para mim, desconfiado. Apesar do seu aspeto cansado, que lhe dava um aspeto envelhecido, eu dar-lhe-ia mais ou menos a minha idade.
-Então porque comprou a sandes?
Fiquei sem resposta. Tinha que dizer algo rapidamente.
-Eu perdi a fome, e como é pecado deitar a comida fora achei que não se importasse.
Ele olhou para mim e para  sandes durante algum tempo. O meu braço já doía de tanto a manter estendida para ele. Por fim, ele pegou na sandes, e comeu-a avidamente. Era óbvio que ainda não tinha comido nada por horas. Em menos de um minuto a sandes já não existia.
-Obrigado- balbuciou. E foi-se embora. E eu voltei para casa.

A partir desse dia, comecei a frequentar o jardim mais vezes. Ele também. Foi difícil conseguir ter um diálogo com ele no inicio. Mas o gelo quebrou depressa. Eu fazia-lhe companhia, ele também. Disse-me o seu nome, e eu disse-lhe o meu. Partilhámos histórias, rimos bastante. Todos os dias eu aguardava ansiosamente pelo dia seguinte. Tinha um novo amigo. Mas melhor que isso. Eu estava apaixonada.


7 comentários :

  1. Quase que fiquei sem palavras, e não há muito mais a dizer, disses-te tudo neste simples e ao mesmo tempo complexo texto :/ É pura verdade, as piores coisas na vida vêm de graça, sem sequer pedirmos por elas... Mas as melhores também são de graça, como amor, preocupação pelo próximo, e esse texto representa ambas, as coisas más e boas :')

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    1. E eu fiquei sem palavras ao ler o teu comentário Márcia. interpretaste o meu texto da melhor forma possível. Obrigada mesmo ahah

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  2. Este é de longe o meu texto favorito do teu blog!!!
    Eu amo
    bjs

    http://behappystylish.blogspot.com/

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  3. Adorei. Tens imenso jeito para escrever. Numa história tal simples conseguiste incluir tantas lições de moral. Devias seriamente pensar em escrever um livro, iria adorar ler.

    Continua
    Adoro o teu blog xx

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